AdolescĂȘncia : travessia e atravessamentos.
- Victor camargo
- 27 de abr.
- 4 min de leitura

A assimilação da vida sexual na adolescĂȘncia, o tempo do vĂ©u e a Ă©tica.
O processo de assimilação da vida sexual na adolescĂȘncia na perspectiva psicanalĂtica Ă© compreendido antes por uma perspectiva lĂłgica do que pelo desenvolvimento fisiolĂłgico. Neste sentido, Ă© privilegiado o processo de constituição da subjetividade do sujeito, com impasses e construçÔes que envolvem novos elementos e papĂ©is do que a apreciação da maturação hormonal.
Tal momento, cabe observar, revela-se propĂcio a impasses dado que o mito, o vĂ©u que o acompanha desde a infĂąncia e o permitiu elaborar, direcionar uma origem, explicar, dispor os lugares dos quais leis regem sua relação recĂproca tecendo uma trama, sentido, enfim, toda esta função Ă© abalada.
A chegada do elemento sexual em um novo estatuto, isto Ă©, seu retorno apĂłs o postergamento instituĂdo moral e pedagogicamente no perĂodo de latĂȘncia convoca o sujeito a elaborar o cenĂĄrio em que esteja representado o sexual e o sujeito numa nova relação enigmĂĄtica, fantasmagĂłrica e que agora o concerne enquanto protagonista da trama. E este Ă© o fator diferencial e fundamental deste perĂodo, o carĂĄter protagonista pĂ”e em exercĂcio, mas tambĂ©m Ă prova as identificaçÔes e os ideais como organizadores da vida pulsional do sujeito. Aqui a trama familiar irĂĄ revelar-se insuficiente e exigirĂĄ o engajamento num para-alĂ©m desta, podendo suscitar todo gĂȘnero de resposta sintomĂĄtica como forma de acomodar este desafio.
O vĂ©u, primeiro tempo, Ă© onde entĂŁo foram forjados os avatares que no segundo serĂŁo vividos a partir de uma descontinuidade. Lacan nomeia este segundo tempo como âprincĂpio da iniciaçãoâ, que consiste no abalo e consequente elaboração da insuficiĂȘncia do primeiro tempo, isso Ă©, que o â vĂ©u levantado [ sobre o mistĂ©rio da sexualidade ] nĂŁo mostra nada â (Consenza p 106 apud Lacan 2003d, p.558). Bem, e em que sentido esse â nĂŁo mostra nada â Ă© traumĂĄtico ? Justamente no trauma da ausĂȘncia da relação sexual, este tempo Ă© assim definido pela constatação por parte do sujeito da insuficiĂȘncia, dos limites da trama enigmĂĄtica do primeiro tempo em fazer UM com o Outro. O revĂ©s vivido aqui Ă© o da irredutibilidade autoerĂłtica do gozo, por melhor ajambrado que seja, visto que se trata de uma questĂŁo estrutural.
Cabe ressaltar , este gĂȘnero de fratura da fantasia ,do vĂ©u, pode ocorrer em qualquer momento da vida do sujeito de acordo com as contingĂȘncias que lhe acometem bem como do sintoma que dispĂ”e, o que estĂĄ sendo destacado aqui Ă© a adolescĂȘncia como um perĂodo particularmente propĂcio a este tensionamento pela caracterĂstica especĂfica de um novo estatuto do elemento sexual, o que irĂĄ requerer do sujeito certa dose de inventividade.
Para alĂ©m de um olhar desenvolvimentista, que os separa por etapas que se sucedem dentro da aquisição de uma ou outra habilidade, Consenza (p.113) sugere tomar a adolescĂȘncia como uma das encruzilhadas estruturais que acometem o sujeito e, neste sentido, a compreende tal como o estĂĄdio do espelho ou o Ădipo. Assim, a adolescĂȘncia remete a um momento de assunção subjetiva de uma posição sexuada, o que parece implicar, nestes termos, um passo, um deslocamento, uma afirmação diante de um impasse e tambĂ©m uma descontinuidade de um estado ,uma passagem a outro em que as coisas mudam de estatuto de maneira irreversĂvel e ressalta que toda esta gama de acontecimentos Ă© melhor apreendida pelo viĂ©s Ă©tico. E o que isto implica ?
A0 visada Ă©tica visa considerar o indeterminĂĄvel a princĂpio que compĂ”e a solução singular de cada sujeito no desenrolar de suas soluçÔes sintomĂĄticas frente aos impasses de suas construçÔes subjetivas, prevalĂȘncia da dimensĂŁo da aposta e do risco em detrimento de estĂĄdios previamente traçados que assinalariam a ausĂȘncia de comorbidades ou nĂŁo conforme determinada habilidade ou mĂ©trica fosse satisfatoriamente atingida
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Ă, portanto, a adolescĂȘncia este perĂodo que o sujeito deve se haver com uma nova etapa do exercĂcio, da articulação de sua fantasia. O sujeito iĆĂĄ se defrontar com a tarefa de instituir inĂ©ditos semblantes do obj a, de sua causa de desejo, tendo em vista o alastramento de seu universo pulsional para alĂ©m da famĂlia e de seus mitos originĂĄrios. Aquilo que era vivido predominantemente em casa e em suas extensĂ”es mais prĂłximas, num corpo infantil, se estende para o mundo a partir do vislumbre da vida adulta. As modalidades de gozo, bem como as defesas frente a este passam por uma inevitĂĄvel revisĂŁo. RevisĂŁo , naturalmente, nĂŁo se trata de uma mera substituição, Lacan postula uma maturação do obj a (p.116) que se darĂĄ mediante a encarnaçÔes metafĂłricas inconscientes que passam a orientar o desejo do sujeito. O estatuto Ă©tico aqui revela-se profĂcuo dentro de uma perspectiva analĂtica que ,avessa ao discurso do mestre, oferece uma escuta que provoca um convite Ă Outra cena, inconsciente, com suas singularidades gozosas.
ReferĂȘncia bibliogrĂĄfica :COSENZA, D. ClĂnica do excesso: derivas pulsionais e soluçÔes sintomĂĄticas na psicopatologia contemporĂąnea. Belo Horizonte: Scriptum, 2024.