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Adolescência : travessia e atravessamentos.

  • Foto do escritor: Victor camargo
    Victor camargo
  • há 2 dias
  • 4 min de leitura
Autor: desconhecido (Egito – Tebas); Título/descrição: A Filha do Caçador (detalhe de uma pintura em parede da Tumba de Menna);
Autor: desconhecido (Egito – Tebas); Título/descrição: A Filha do Caçador (detalhe de uma pintura em parede da Tumba de Menna);

A assimilação da vida sexual na adolescência, o tempo do véu e a ética.


O processo de assimilação da vida sexual na adolescência na perspectiva psicanalítica é compreendido antes por uma perspectiva lógica do que pelo desenvolvimento fisiológico. Neste sentido, é privilegiado o processo de constituição da subjetividade do sujeito, com impasses e construções que envolvem novos elementos e papéis do que a apreciação da maturação hormonal.

Tal momento, cabe observar, revela-se propício a impasses dado que o mito, o véu que o acompanha desde a infância e o permitiu elaborar, direcionar uma origem, explicar, dispor os lugares dos quais leis regem sua relação recíproca tecendo uma trama, sentido, enfim, toda esta função é abalada.

A chegada do elemento sexual em um novo estatuto, isto é, seu retorno após o postergamento instituído moral e pedagogicamente no período de latência convoca o sujeito a elaborar o cenário em que esteja representado o sexual e o sujeito numa nova relação enigmática, fantasmagórica e que agora o concerne enquanto protagonista da trama. E este é o fator diferencial e fundamental deste período, o caráter protagonista põe em exercício, mas também à prova as identificações e os ideais como organizadores da vida pulsional do sujeito. Aqui a trama familiar irá revelar-se insuficiente e exigirá o engajamento num para-além desta, podendo suscitar todo gênero de resposta sintomática como forma de acomodar este desafio.


O véu, primeiro tempo, é onde então foram forjados os avatares que no segundo serão vividos a partir de uma descontinuidade. Lacan nomeia este segundo tempo como “princípio da iniciação”, que consiste no abalo e consequente elaboração da insuficiência do primeiro tempo, isso é, que o “ véu levantado [ sobre o mistério da sexualidade ] não mostra nada ” (Consenza p 106 apud Lacan 2003d, p.558). Bem, e em que sentido esse “ não mostra nada ” é traumático ? Justamente no trauma da ausência da relação sexual, este tempo é assim definido pela constatação por parte do sujeito da insuficiência, dos limites da trama enigmática do primeiro tempo em fazer UM com o Outro. O revés vivido aqui é o da irredutibilidade autoerótica do gozo, por melhor ajambrado que seja, visto que se trata de uma questão estrutural.


Cabe ressaltar , este gênero de fratura da fantasia ,do véu, pode ocorrer em qualquer momento da vida do sujeito de acordo com as contingências que lhe acometem bem como do sintoma que dispõe, o que está sendo destacado aqui é a adolescência como um período particularmente propício a este tensionamento pela característica específica de um novo estatuto do elemento sexual, o que irá requerer do sujeito certa dose de inventividade.


Para além de um olhar desenvolvimentista, que os separa por etapas que se sucedem dentro da aquisição de uma ou outra habilidade, Consenza (p.113) sugere tomar a adolescência como uma das encruzilhadas estruturais que acometem o sujeito e, neste sentido, a compreende tal como o estádio do espelho ou o Édipo. Assim, a adolescência remete a um momento de assunção subjetiva de uma posição sexuada, o que parece implicar, nestes termos, um passo, um deslocamento, uma afirmação diante de um impasse e também uma descontinuidade de um estado ,uma passagem a outro em que as coisas mudam de estatuto de maneira irreversível e ressalta que toda esta gama de acontecimentos é melhor apreendida pelo viés ético. E o que isto implica ?


A0 visada ética visa considerar o indeterminável a princípio que compõe a solução singular de cada sujeito no desenrolar de suas soluções sintomáticas frente aos impasses de suas construções subjetivas, prevalência da dimensão da aposta e do risco em detrimento de estádios previamente traçados que assinalariam a ausência de comorbidades ou não conforme determinada habilidade ou métrica fosse satisfatoriamente atingida

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É, portanto, a adolescência este período que o sujeito deve se haver com uma nova etapa do exercício, da articulação de sua fantasia. O sujeito iŕá se defrontar com a tarefa de instituir inéditos semblantes do obj a, de sua causa de desejo, tendo em vista o alastramento de seu universo pulsional para além da família e de seus mitos originários. Aquilo que era vivido predominantemente em casa e em suas extensões mais próximas, num corpo infantil, se estende para o mundo a partir do vislumbre da vida adulta. As modalidades de gozo, bem como as defesas frente a este passam por uma inevitável revisão. Revisão , naturalmente, não se trata de uma mera substituição, Lacan postula uma maturação do obj a (p.116) que se dará mediante a encarnações metafóricas inconscientes que passam a orientar o desejo do sujeito. O estatuto ético aqui revela-se profícuo dentro de uma perspectiva analítica que ,avessa ao discurso do mestre, oferece uma escuta que provoca um convite à Outra cena, inconsciente, com suas singularidades gozosas.


Referência bibliográfica :COSENZA, D. Clínica do excesso: derivas pulsionais e soluções sintomáticas na psicopatologia contemporânea. Belo Horizonte: Scriptum, 2024.

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